| Ciberoteca |
| Projeto | Emec | Aplicações pilotos | Clearinghouse | Eventos | Avaliações |
| Discurso de introdução ao PREPCOM durante a Reunião de Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, Genebra, 7/2002 | ||
| Autor: Daniel Pimienta |
data de publicação : 07/2002 |
Conteúdo |
| palavras
chaves : |
||
| você está
aqui: Ciberoteca > Participantes > por_doc_wsis.html |
Documentos
conexos:
doc-ino, doc-cv, doc-sam, doc-Final, doc_olist doc-cv, doc-coord |
|
|
Discurso de introdução do PREPCOM/WSIS (http://www.itu.int/wsis)
Genebra, 1/7/2002. por Daniel Pimienta Presidente da Fundação Redes e Desenvolvimento (http://funredes.org) ,
República Dominicana: Coordenador da comunidade virtual latino-americana sobre o
impacto social das TIC (http://funredes.org/mistica). Não estou acostumado a participar
das grandes reuniões do sistema das Nações Unidas. Trabalho no terreno, como pesquisador e agente da sociedade civil organizada do Sul e participo em oficinas de
trabalho e em comunidades virtuais de aprendizado e colaboração. Minha
presença hoje é um sintoma de que a Reunião de Cúpula Mundial da
Sociedade da Informação poderia ser
diferente das reuniões tradicionais e abrir novos espaços e
modalidades de participação. Por que deve ser assim?
Simplesmente porque, se se trata de visualizar e decidir qual será a nova
forma de sociedade, a mudança de
paradigma necessária à sua construção, por um claro dever de coerência, deve ser holística. As organizações pioneiras neste
campo, que também são as mais antigas, têm menos de 15 anos de existência;
a maioria dos grupos organizados sobre esta temática têm menos de 5 anos
de vida e cada dia aparecem novos grupos. Os critérios que nos dão maior
crédito mutuamente referem-se mais à qualidade e transparência de
nossos sites Web, que
apresentam nossas atividades e recursos associados, mais que em documentos
tradicionais, sejam eles legais ou contábeis. De fato, a percepção
majoritária das reuniões “tradicionais” por parte do terreno é
bastante crítica. No melhor dos casos aparecem como algo que acontece num
espaço distante das realidades do terreno; no pior dos casos, receamos que
a sociedade civil seja utilizada
e que sua presença sirva de álibi para decisões onde sua participação
não foi pró-ativa. Assim, poderão entender que
não pretendo, de maneira
alguma, “representar” aqui a sociedade civil: esta é múltipla,
plural e diversa como seus atores e atrizes, o que não reduz sua
capacidade de coesão em momentos decisivos. Que mensagens essenciais pretendo
expressar como uma das vozes da
sociedade civil, relacionada à construção coletiva das sociedades da informação, da comunicação ou do conhecimento, pouco importando como queremos denominar um meio
social no qual o uso das redes eletrônicas muda radicalmente a maneira de
interagir entre os seres humanos e a informação por eles gerada. Este
marco apresenta novos objetivos e oportunidades e, portanto, requer novos direitos, como poderia ser o
direito à comunicação, bem
como adaptar o direito, como
por exemplo o da propriedade
intelectual. Podem notar que falo de sociedades, já que deve estar
muito claro que cada entidade deverá decidir democraticamente seu próprio
modelo, em função de suas correntes culturais, dos interesses de seus cidad@os e de
sua história. E, falando-se de história,
a história oficial da Internet, com sua tendência a dar maior importância
aos fenômenos tecnológicos, tende a esquecer que os pioneiros das redes
foram em primeiro lugar os pesquis@dores de todas as regiões, seguidos por setores da
sociedade civil tanto do Sul (redes
para o desenvolvimento) quanto do Norte (redes cidadãs e comunitárias)
que perceberam bastante cedo as promessas de comunicação via computador
e criaram as primeiras aplicações sociais das Tecnologias da Informação
e Comunicação (TIC), articulando-as de forma local e global. ABISMO DIGITAL ou RUPTURA
SOCIAL? Entre o Norte e o Sul, bem
como no interior de qualquer país, existem graves rupturas sociais, econômicas e
políticas. O abismo digital só é o reflexo desta situação e colocar o
termômetro na geladeira não fará baixar a febre. Dediquei os últimos
15 anos de minha vida ao uso das TIC para o desenvolvimento e, obviamente,
acredito que existam possibilidades de reduzir a ruptura social a partir
de um uso apropriado das TIC. Não obstante, a retórica
dominante é superficial e simplista quando esquece as promessas realmente
sociais (a apropriação social das
tecnologias e, a partir dela, o “empowerment”
das pessoas e comunidades) e polariza a discussão sobre o tema dos acessos, no sentido mais restrito
da palavra. É óbvio que são necessárias infra-estruturas de acesso às
redes e um preço acessível a seus serviços, mas isso não é tudo. Outros
elementos são imprescindíveis para que as aplicações das TIC possam
realmente mudar a realidade da injustiça social e para que a expressão
acesso universal tenha um sentido transformador: -
A existência de conteúdos (e
interfaces) que reflitam adequadamente as línguas e culturas de cada grupo. Ainda que
a sociedade globalizada precise basear-se em valores partilhados e consolidar seus princípios éticos globais, deve também favorecer a diversidade
cultural, riqueza essencial da humanidade e substrato vital da
complexidade de nossas sociedades que mantém sua capacidade de evoluir. -
A educação
básica solicitada por parte dos usuários a fim de transformar a
informação em conhecimento e os conhecimentos em saber e sabedoria; se há
um objetivo maior, este é sem dúvida a educação para todos, objetivo
que exige um uso inovador das TIC para democratizar a educação, mas sem
esquemas redutores. -
Uma capacitação específica para um uso
maduro dessas tecnologias e a compreensão de seus desafios sociais, o que
estabelece a diferença entre consumidores e produtores e faz com que os
cidadãos possam se comprometer
socialmente e serem atores/atrizes do desenvolvimento. A tarefa é enorme e a máxima
prioridade deve ser dada aos excluídos, entendendo por excluídos todos
os grupos socialmente discriminados.
Da mesma forma, uma atenção muito especial deve ser dada às mulheres e
jovens e a situação de isolamento dos setores rurais deve ser levada em
consideração. GOVERNOS GLOBAIS E
CO-REGULAMENTAÇÃO Decisões aparentemente técnicas
que podem afetar sensivelmente nossos rumos sociais estão sendo tomadas
por organismos globais de governos que, muitas vezes, funcionam como
clubes fechados. A transparência
não é suficiente: os governos (tanto nacionais quanto globais) devem
assumir seus papéis de reguladores entre a demanda social e o setor
privado, associando ativamente a sociedade civil em esquemas de
co-regulamentação. Uma relação de respeito mútuo deve ser
estabelecida entre o setor privado e a sociedade civil para que se reconheça
a existência (e o necessário crescimento) de um domínio público de informação e conhecimento, bem como as fontes
de acesso abertas. A sociedade civil, em todas
as suas vertentes (sindicatos, pesquisadores, associações profissionais,
comunidades de base, etc.), tem competências a oferecer: facilitar a vida
dos cidadãos, experimentar a sociedade, criar capacidades e, ainda, uma
função de elo de ligação com os governos locais. Trata-se, enfim, de
um papel de capilaridade
essencial no tecido social (as artérias e veias não chegam às
extremidades). È preciso ter muita criatividade para inventar novos modelos ou métodos democráticos a
fim de considerar os assuntos de governos globais. Chamo a atenção ao
dizer que, em matéria de criatividade, não existe abismo: o Sul tem pelo
menos tantas capacidades quanto o Norte e as reuniões organizadas na África,
bem como várias experiências de terreno na América Latina, são
testemunho. Deveríamos dar maior atenção (e recursos!) às iniciativas locais e comunitárias
que experimentam com sucesso e tecem um novo mundo de baixo para cima: a cooperação internacional também
deve mudar de paradigma e fortalecer as iniciativas locais respeitando e
valorizando seus processos em vez de impor soluções de cima para baixo. Em conclusão, que expectativa
temos nesta reunião? Mais que nos produtos, com os quais com certeza
queremos colaborar trazendo nossas visões, fruto de nossas experiências
sociais, centramos nossas esperanças
no processo, um processo capaz de gerar verdadeiras ações pelas
quais nos sentiremos comprometidos
em seu desenvolvimento por ter participado
em cada etapa. Pensamos que esta reunião
de cúpula será a primeira oportunidade global real para associar
efetivamente os três principais setores da sociedade numa reflexão comum
orientada para a ação. Pensamos que somente se se respeita o processo de
participação será possível uma repartição equilibrada entre (e
dentro dos) os governos, o setor privado e a sociedade civil, podendo
emergir soluções capazes de oferecer respostas à complexidade dos
objetivos que enfrentam nossas sociedades. Assim, a qualidade de seu processo participativo representa a clave da
credibilidade que gerará esta Reunião face à diversidade de setores e
agentes da sociedade civil, tomando-se em conta que, numa sociedade em
rede, a capacidade de incidência tem múltiplas opções para se
expressar. Quero terminar com uma nota de otimismo, saudando a reunião regional africana, que pôde demonstrar com fatos os benefícios da abertura para a sociedade; e alegro-me ao ver que a Europa anuncia sua adesão a este princípio de abertura e, finalmente, dando as boas-vindas à reunião latino-americana que terá como sede a República Dominicana, confiando em que esta possa inspirar-se no mesmo sentido de abertura e que seja um momento de criatividade partilhada para a América Latina e o Caribe.
|
| Créditos | Mapa do site | Correo: <[email protected]> |
| http://funredes.org/mistica/portugues/ciberoteca/participants/docuparti/por_doc_wsis.html
Ultimo modificação: 24/10/2002 |